Perceber que os olhos do filho não estão alinhados costuma gerar ansiedade imediata nos pais. Uma das primeiras perguntas que surgem é: isso vai precisar de cirurgia?
A resposta é: depende do tipo de estrabismo, da frequência do desvio, da idade da criança e da causa do problema. Nem todo estrabismo infantil precisa ser operado. Em muitos casos, o tratamento pode envolver óculos, controle do grau, tampão, colírios ou acompanhamento. Mas existem situações em que a cirurgia é uma parte importante do tratamento e pode ter papel decisivo no alinhamento ocular e no desenvolvimento visual.
Entender isso de forma clara ajuda a diminuir o medo e, principalmente, evita atrasos em um momento em que o tempo pode fazer diferença para a visão da criança. Em casos como a esotropia infantil, por exemplo, a literatura da AAPOS aponta que a cirurgia frequentemente é feita ainda cedo e que a correção precoce pode favorecer o desenvolvimento visual e a possibilidade de melhor uso dos dois olhos em conjunto.
O que é a cirurgia de estrabismo?
A cirurgia de estrabismo é um procedimento feito nos músculos que movimentam os olhos. O objetivo é reposicionar ou ajustar a força desses músculos para melhorar o alinhamento ocular. Em termos simples, o cirurgião pode enfraquecer ou fortalecer determinados músculos para que os olhos atuem de forma mais coordenada.
Esse é um ponto importante: a cirurgia não é feita “dentro do olho” e o olho não é retirado do lugar em nenhum momento. O acesso é feito pela conjuntiva, que é a membrana que reveste a parte branca do olho, sem corte na pele. Isso costuma tranquilizar bastante as famílias, porque há muitos mitos em torno desse procedimento.
Toda criança com estrabismo precisa operar?
Não. Essa é uma das maiores dúvidas no consultório e também uma das maiores confusões entre os pais.
Alguns quadros podem melhorar ou ser controlados com tratamento clínico. Em certos tipos de estrabismo, os óculos têm papel essencial. Na esotropia acomodativa, por exemplo, a cirurgia costuma ser considerada apenas quando os óculos não conseguem alinhar totalmente os olhos (desvio parcialmente acomodativo). Mesmo quando a cirurgia é indicada, ela não necessariamente elimina a necessidade de continuar usando os óculos.
Já em casos de exotropia, a cirurgia pode entrar em cena quando o desvio acontece com frequência, quando há perda da visão binocular, cansaço visual ou visão dupla, e quando outras medidas não são suficientes.
Ou seja, a decisão cirúrgica não depende só de “o olho entorta”, mas de uma avaliação completa do tipo de estrabismo, do comportamento do desvio, da idade da criança e do impacto visual funcional.
Quando a cirurgia de estrabismo infantil costuma ser indicada?
De forma geral, a cirurgia pode ser considerada quando há uma ou mais destas situações:
• o desvio ocular é constante ou acontece na maior parte do tempo
• os olhos não ficam alinhados adequadamente apenas com óculos
• há risco de prejuízo na cooperação entre os dois olhos
• existe repercussão funcional importante, como perda de binocularidade ou visão dupla em alguns casos
• o quadro não responde como esperado ao tratamento clínico
Nos casos de esotropia infantil, a cirurgia é frequentemente utilizada para alinhar os olhos ainda na infância, e a AAPOS destaca que em muitos pacientes ela é realizada antes dos 2 anos, justamente porque o alinhamento precoce pode favorecer melhor desenvolvimento visual. Ainda assim, o momento exato deve ser individualizado e decidido pelo oftalmologista especialista em estrabismo.
O que a cirurgia corrige e o que ela não corrige
Esse ponto precisa estar muito claro para os pais.
A cirurgia de estrabismo tem como principal objetivo melhorar o alinhamento dos olhos. Em muitos casos, isso também pode favorecer a forma como os olhos trabalham juntos e, dependendo do quadro, contribuir para melhor percepção de profundidade.
Mas a cirurgia não é sinônimo de “cura total da visão”.
Se a criança também tiver ambliopia, por exemplo, o tratamento visual pode continuar sendo necessário antes ou depois da cirurgia. A AAPOS (Associação Americana de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo) é direta ao afirmar que a cirurgia pode fazer parte do plano terapêutico da ambliopia associada ao estrabismo, mas muitas crianças ainda precisam de tampão ou colírios para estimular o olho mais fraco. Sem tratamento adequado na infância, a baixa visual da ambliopia pode se tornar permanente.
Da mesma forma, em alguns tipos de estrabismo, a criança pode continuar precisando de óculos mesmo após a operação. Isso acontece porque a cirurgia ajusta os músculos oculares, enquanto os óculos corrigem erros de refração e podem continuar sendo parte do tratamento.
Como a cirurgia é feita?
Em crianças, a cirurgia de estrabismo é geralmente feita com anestesia geral, para que o procedimento ocorra com segurança e conforto. A AAPOS explica que, na anestesia pediátrica, a indução costuma começar com máscara e, na maioria dos procedimentos oculares, também há controle da respiração por via aérea apropriada durante a cirurgia.
O procedimento costuma durar em torno de uma hora, embora o tempo total no hospital seja maior por causa da preparação e da recuperação anestésica. Também é comum que seja uma cirurgia em regime de day hospital, com alta no mesmo dia, tanto em crianças quanto em adultos, desde que tudo esteja bem na recuperação.
Dependendo do caso, a cirurgia pode ser feita em um ou nos dois olhos, e pode envolver um ou mais músculos oculares. O cirurgião reposiciona esses músculos para ajustar a força de tração e buscar melhor alinhamento.
Como é a recuperação da cirurgia de estrabismo?
No pós operatório, é esperado que a parte branca do olho fique vermelha por algum tempo. Também pode haver sensação de ardor, de arranhar, desconforto ao movimentar os olhos e lacrimejamento nos primeiros dias. Esses sintomas costumam melhorar progressivamente.
Na grande maioria dos casos, a criança vai para casa no mesmo dia. Pode haver curativo temporário, dependendo da rotina do serviço e do caso operado.
É importante que os pais saibam que o resultado visual e o alinhamento não devem ser julgados apenas nas primeiras horas ou nos primeiros dias, porque existe um período de adaptação e cicatrização. O acompanhamento pós operatório é fundamental para avaliar a evolução, orientar colírios, higiene ocular e próximos passos do tratamento.
A cirurgia é segura?
De forma geral, sim. A cirurgia de estrabismo é considerada um procedimento seguro e eficaz, embora, como qualquer cirurgia, não seja isenta de riscos. Fontes hospitalares e entidades especializadas descrevem como possíveis complicações: infecção, subcorreção, hipercorreção, visão dupla temporária ou persistente e, em alguns casos, necessidade de nova cirurgia.
Na prática, isso significa duas coisas muito importantes.
A primeira é que a cirurgia costuma trazer benefício real quando bem indicada.
A segunda é que ela precisa ser encarada com seriedade, planejamento e acompanhamento por especialista.
Pode ser necessário operar mais de uma vez?
Pode, sim.
Isso não significa, necessariamente, que a primeira cirurgia “deu errado”. O estrabismo não é uma condição simples e totalmente previsível. Em alguns pacientes, especialmente em certos tipos de desvio infantil, mais de uma intervenção pode ser necessária ao longo do tempo para alcançar ou manter o melhor alinhamento possível. A própria AAPOS informa que, em esotropia infantil, algumas crianças precisam de nova cirurgia logo depois da primeira, enquanto outras só voltam a precisar muitos anos depois.
Por isso, o mais correto é pensar em cirurgia de estrabismo como parte de um plano de tratamento, e não como um evento isolado desconectado do restante do acompanhamento oftalmológico.
Qual é a melhor idade para operar?
Não existe uma idade única que sirva para todos os casos.
Em algumas formas de estrabismo infantil, operar cedo pode ser importante para favorecer o desenvolvimento da visão binocular. Em outras, a cirurgia só é indicada depois de avaliar a resposta aos óculos, ao tratamento da ambliopia e ao comportamento do desvio ao longo do tempo. Na exotropia, por exemplo, a AAPOS destaca que a idade, por si só, não é o fator principal. O que pesa mais é a frequência do desvio e a perda de controle dos olhos.
Ou seja, a melhor idade é a idade certa para aquele caso específico, definida com base em exame, diagnóstico e acompanhamento.
Cirurgia de estrabismo em adulto é só estética?
Não. Embora este artigo esteja focado em crianças, vale fazer esse esclarecimento porque muita gente ainda pensa assim.
A AAPOS afirma que, em adultos, a cirurgia de estrabismo não é estritamente cosmética. Ela pode ajudar a melhorar visão dupla, percepção de profundidade, campo visual em alguns casos e qualidade de vida, além do alinhamento ocular.
Esse ponto também reforça algo importante para os pais: alinhar os olhos não é apenas uma questão de aparência. Dependendo do quadro, pode haver impacto visual funcional e desenvolvimento binocular envolvidos.
Sinais de que seu filho precisa ser avaliado:
Mesmo que você ainda não saiba se há indicação cirúrgica, alguns sinais merecem atenção:
-um olho parece desviar com frequência
-a criança fecha ou aperta um dos olhos
-inclina a cabeça para enxergar
-parece esbarrar muito ou ter dificuldade com profundidade
-tem histórico de estrabismo na família
-já recebeu diagnóstico de ambliopia ou erro de refração importante
Nessas situações, a avaliação com oftalmologista com experiência em oftalmologia pediátrica e estrabismo é o caminho mais seguro para definir o diagnóstico e a melhor conduta.
Conclusão
A cirurgia de estrabismo infantil é um recurso importante e, em muitos casos, necessário para melhorar o alinhamento dos olhos e favorecer o desenvolvimento visual. Mas ela não deve ser vista como uma resposta automática para todo estrabismo, nem como um procedimento puramente estético.
Cada criança precisa ser avaliada de forma individual. Em alguns casos, o tratamento começa com óculos. Em outros, com controle de ambliopia. E, quando a cirurgia entra em cena, ela faz parte de uma estratégia maior, pensada para proteger a visão e buscar o melhor resultado funcional possível.
Se você percebe que os olhos do seu filho não estão alinhados, não espere “passar sozinho” sem avaliação.
O diagnóstico precoce é o que permite escolher o momento certo e o tratamento mais adequado e dará a ele as melhores condições de desenvolvimento visual.
Consultório em Pinheiros – São Paulo
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Dra. Lívia Andrade Kühl
Oftalmologista | Oftalmopediatra | Estrabismo
CRM 171602-SP | RQE 61365

